Do Rio ao Oceano: quando a arte liga os jovens ao território- Entre o Clima e a paisagem #3

“Do Rio ao Oceano: quando a arte liga os jovens ao território”

 

Como envolver as gerações mais jovens com os lugares onde vivem?
Como promover uma maior valorização da água, do património e da paisagem que as rodeia?

Na edição deste mês de Junho  da rubrica Entre o Clima e a Paisagem, destacamos um exemplo concreto de como a arte, a educação e a participação comunitária podem criar pontes significativas entre os jovens e o seu território. O projeto Minante – Prototipagem de uma Experiência Natural e Cultural para a Co-Criação de Espaços Públicos, desenvolvido entre 2023 e 2024 numa região semi-rural do litoral norte de Portugal (Figura 1), é um bom exemplo dessa ligação.

Figura 1. Mapa da área de intervenção do projeto, destacando a localização do Moinho de Água do Minante, o Rio Neiva, o Oceano Atlântico, o Município de Viana do Castelo (a norte, na parte superior) e o Município de Esposende (a sul, na parte inferior). Nota: As diferentes cores no mapa representam a diversidade de habitats existentes na região. Fonte da imagem: Roberti, A., von Schönfeld, K., & Monteiro, R. (2025). From Riverbank to Ocean: Involving Young Generations With Their Territory Through Artistic Practices. Ocean and Society, 2, Article 9634. https://doi.org/10.17645/oas.9634

O Minante: um lugar de memória reativado

O projeto teve como centro o antigo moinho de água do Minante, nas margens do rio Neiva, perto da sua foz. Este espaço, já identificado pela população como um local de importância cultural e simbólica, foi reativado através de várias intervenções artísticas promovidas por alunos de quatro escolas da região, com idades entre os 12 e os 18 anos.

Mais de 500 pessoas participaram no projeto, incluindo 115 alunos e 7 professores, com o objetivo de reforçar a ligação entre os jovens e este território pouco conhecido, mas com um património natural e cultural relevante.

Intervenções artísticas com sentido

As atividades realizadas foram diversificadas, abrangendo meios digitais, artes plásticas, construção em madeira e sinalização criativa. Entre as ações destacam-se:

  • Criação de placas de sinalização para uma “galeria viva” no espaço do moinho

  • Intervenção numa árvore da margem do rio com tintas ecológicas e ilustrações de espécies nativas

  • Reinterpretação artística do lugar através de fotografia, vídeo e desenho

  • Construção de uma estrutura removível para colocação de resíduos, com foco na sensibilização ambiental

  • Ensaios artísticos sobre a relação sensorial com a paisagem ribeirinha

Os professores envolvidos destacaram o impacto positivo da experiência (Figura 2). Vários alunos, inicialmente distantes da natureza, desenvolveram uma nova relação com o local, marcada pelo respeito, pela curiosidade e por uma sensação de pertença.

Figura 2. Atividades desenvolvidas no âmbito do projeto Minante para promover a consciência ambiental através de práticas artísticas. As ações incluíram a criação de placas informativas para uma galeria viva, intervenções visuais em árvores com tintas ecológicas, reinterpretação do território com recurso a fotografia, vídeo e desenho, construção de uma estrutura removível para resíduos, e ensaios sensoriais com a paisagem ribeirinha. Estas práticas contribuíram para reforçar a ligação dos participantes ao território e fomentar uma atitude ativa de cuidado ambiental. Adaptado de : Roberti, A., von Schönfeld, K., & Monteiro, R. (2025). From Riverbank to Ocean: Involving Young Generations With Their Territory Through Artistic Practices. Ocean and Society, 2, Article 9634. https://doi.org/10.17645/oas.9634

O território como espaço educativo: aprendizagens do projeto Minante

A importância do território como espaço educativo é um dos temas centrais abordados no artigo “Do Rio ao Oceano: Envolvendo Jovens Gerações com o Seu Território Através de Práticas Artísticas”. O contacto direto com a natureza, a cultura e o património local, mediado por metodologias artísticas de co-criação, é identificado como um catalisador fundamental para o desenvolvimento de uma literacia profunda da água e do oceano, bem como para o fortalecimento do cuidado intergeracional com estes ambientes.

No contexto do projeto Minante, e das iniciativas que dele derivaram, esta visão concretizou-se de diversas formas, que organizamos nos eixos seguintes:

1. Literacia da Água e do Oceano e Conexão com o Património

O projeto Minante procurou envolver as escolas de uma região semi-rural do litoral norte de Portugal com o património hídrico — natural e cultural — que as rodeia, tendo como foco o moinho do Minante e a área envolvente.

Através de práticas artísticas, os alunos foram incentivados a explorar e apropriar-se de locais frequentemente ignorados, mas com grande relevância ecológica e cultural (Figura 2). Esta abordagem contrasta com modelos educativos tradicionais, muitas vezes centrados em conteúdos teóricos e descontextualizados.

O artigo defende que é precisamente este contacto direto com os territórios, aliado ao envolvimento ativo e criativo, que potencia o desenvolvimento de uma verdadeira literacia da água e do oceano (Figura 3), capaz de gerar uma relação de pertença e responsabilidade ambiental.

Figura 3. Representação do papel do projeto Minante na promoção da literacia ambiental através do património local. A imagem contrasta uma aprendizagem escolar tradicional e descontextualizada com uma abordagem baseada na exploração do território e no envolvimento criativo com o património hídrico local, fomentando o sentimento de pertença e a responsabilidade ambiental nos alunos participantes. Adaptado de : Roberti, A., von Schönfeld, K., & Monteiro, R. (2025). From Riverbank to Ocean: Involving Young Generations With Their Territory Through Artistic Practices. Ocean and Society, 2, Article 9634. https://doi.org/10.17645/oas.9634

2. Aprendizagem Experiencial e Saída da Sala de Aula

A aprendizagem experiencial foi a base do trabalho desenvolvido pelas turmas envolvidas. O território serviu como sala de aula viva, permitindo o contacto direto com a natureza e os processos culturais locais.

Os professores destacaram o impacto destas experiências. Uma das docentes afirmou: “A melhor escola é aquela que se vive, que se experiencia na prática, fora da sala de aula, num contexto real.”

Muitos alunos, especialmente os mais novos, revelaram inicialmente algum receio do espaço natural — como o desconforto em sentar-se na relva ou o medo de insetos —, mas rapidamente superaram essas barreiras. Essa transformação evidenciou a distância crescente entre os jovens e os ambientes naturais, mesmo em contextos rurais, e a importância de criar oportunidades para recuperar essa relação.

3. Co-Criação de Conhecimento e Património Intergeracional

O território foi também entendido como espaço de co-criação de conhecimento e de reconstrução simbólica do património. O foco no moinho do Minante, em ruínas, procurou reconectar gerações em torno de um lugar com forte valor identitário.

As metodologias artísticas, ao permitirem a expressão pessoal e a interpretação do lugar pelos alunos, facilitaram uma ligação emocional e cultural ao espaço. As intervenções artísticas desenvolvidas — desde sinalética até instalações visuais e estruturas funcionais — foram formas de agir sobre o território, refletir sobre ele e contribuir para a sua valorização.

Este envolvimento juvenil correspondeu a um desejo expresso pela população local mais envelhecida, que manifestava preocupação com a preservação das culturas ligadas à água. Assim, o projeto ajudou a construir pontes entre gerações, promovendo um território mais vivido e participado.

4. Desafios e Boas Práticas para o Futuro

Apesar do sucesso do projeto, foram identificados vários desafios associados à utilização do território como espaço educativo:

  • Dificuldade em articular o tempo escolar com o tempo necessário para o desenvolvimento dos projetos

  • Logística de transporte de alunos

  • Recursos financeiros limitados

Em resposta a estas dificuldades, o Workshop Lab.CA Educação e Território, realizado após o projeto, promoveu uma reflexão coletiva que resultou na identificação de boas práticas que desenvolveremos no tópico seguinte.

Reflexão e continuidade: o workshop Lab.CA

Após a conclusão do projeto, foi promovido o workshop Lab.CA Educação e Território, com o objetivo de refletir sobre a participação das escolas e projetar futuras iniciativas. A sessão permitiu identificar boas práticas e recomendações fundamentais, tais como:

  • Envolvimento precoce das escolas no planeamento

  • Adaptação dos calendários escolares aos tempos da natureza

  • Utilização de materiais sustentáveis e inspirados nos recursos locais

  • Promoção da colaboração entre diferentes escolas, parceiros culturais, associações ambientais, autarquias e universidades

Os participantes destacaram ainda a importância de trabalhar temas como comunidade, água, oceano, continuidade e partilha de forma transversal e colaborativa, Figura 4.

Figura 4. Alguns dos resultados do exercício com post-its realizado durante o workshop Lab.CA. Nota: Os temas destacados incluíram ideias como: Criar novos tipos de memórias Aprender com e sobre a natureza Reforçar a relação com a comunidade Ter mais natureza na escola e “humanizar” o espaço escolar Atos performativos ligados à água (teatro, dança, cinema) Cruzamento de saberes entre diferentes áreas e atores Partilha com a comunidade ao longo do processo Explorar o simbolismo da água como espelho do território Criar espaços de liberdade Valorizar o papel das novas gerações na preservação do lugar Descobrir culturas próximas, mas pouco conhecidas Trabalhar temas como oceano, alterações climáticas nas praias, e o território local Propostas como acampamentos, surpresas para os participantes e abordagens transdisciplinares Envolvimento de associações culturais Continuidade dos projetos, com apoio das autarquias Fonte: Roberti, A. C. (Director). (2024). Minante: Uma galeria viva [Film]. Rio Neiva—Associação de Defesa do Ambiente. https://vimeo.com/902256285

Conclusão: educar para cuidar

O projeto Minante demonstrou que o contacto direto com a natureza e o património local, facilitado por práticas artísticas participativas, pode ser um catalisador importante para a literacia da água e do oceano. A ligação afetiva e sensorial ao território contribui para formar cidadãos mais conscientes, atentos e comprometidos com a sustentabilidade.

Mais do que um projeto artístico ou educativo, o Minante representa uma proposta para repensar o papel da escola, tornando-a um espaço mais aberto ao mundo, enraizado no contexto onde se insere e capaz de criar ligações significativas entre as pessoas e os lugares.

Esta é uma das muitas formas de cuidar da paisagem — através da arte, da participação e do envolvimento de quem mais pode fazer a diferença: as novas gerações.

Entre o Clima e a Paisagem é uma rubrica do Centro do Clima que traduz e partilha conhecimento 
científico aplicado aos territórios, promovendo práticas que aliem sustentabilidade, cultura 
e participação comunitária.

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