“Do Rio ao Oceano: quando a arte liga os jovens ao território”
Como envolver as gerações mais jovens com os lugares onde vivem?
Como promover uma maior valorização da água, do património e da paisagem que as rodeia?
Na edição deste mês de Junho da rubrica Entre o Clima e a Paisagem, destacamos um exemplo concreto de como a arte, a educação e a participação comunitária podem criar pontes significativas entre os jovens e o seu território. O projeto Minante – Prototipagem de uma Experiência Natural e Cultural para a Co-Criação de Espaços Públicos, desenvolvido entre 2023 e 2024 numa região semi-rural do litoral norte de Portugal (Figura 1), é um bom exemplo dessa ligação.

O Minante: um lugar de memória reativado
O projeto teve como centro o antigo moinho de água do Minante, nas margens do rio Neiva, perto da sua foz. Este espaço, já identificado pela população como um local de importância cultural e simbólica, foi reativado através de várias intervenções artísticas promovidas por alunos de quatro escolas da região, com idades entre os 12 e os 18 anos.
Mais de 500 pessoas participaram no projeto, incluindo 115 alunos e 7 professores, com o objetivo de reforçar a ligação entre os jovens e este território pouco conhecido, mas com um património natural e cultural relevante.
Intervenções artísticas com sentido
As atividades realizadas foram diversificadas, abrangendo meios digitais, artes plásticas, construção em madeira e sinalização criativa. Entre as ações destacam-se:
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Criação de placas de sinalização para uma “galeria viva” no espaço do moinho
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Intervenção numa árvore da margem do rio com tintas ecológicas e ilustrações de espécies nativas
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Reinterpretação artística do lugar através de fotografia, vídeo e desenho
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Construção de uma estrutura removível para colocação de resíduos, com foco na sensibilização ambiental
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Ensaios artísticos sobre a relação sensorial com a paisagem ribeirinha
Os professores envolvidos destacaram o impacto positivo da experiência (Figura 2). Vários alunos, inicialmente distantes da natureza, desenvolveram uma nova relação com o local, marcada pelo respeito, pela curiosidade e por uma sensação de pertença.

O território como espaço educativo: aprendizagens do projeto Minante
A importância do território como espaço educativo é um dos temas centrais abordados no artigo “Do Rio ao Oceano: Envolvendo Jovens Gerações com o Seu Território Através de Práticas Artísticas”. O contacto direto com a natureza, a cultura e o património local, mediado por metodologias artísticas de co-criação, é identificado como um catalisador fundamental para o desenvolvimento de uma literacia profunda da água e do oceano, bem como para o fortalecimento do cuidado intergeracional com estes ambientes.
No contexto do projeto Minante, e das iniciativas que dele derivaram, esta visão concretizou-se de diversas formas, que organizamos nos eixos seguintes:
1. Literacia da Água e do Oceano e Conexão com o Património
O projeto Minante procurou envolver as escolas de uma região semi-rural do litoral norte de Portugal com o património hídrico — natural e cultural — que as rodeia, tendo como foco o moinho do Minante e a área envolvente.
Através de práticas artísticas, os alunos foram incentivados a explorar e apropriar-se de locais frequentemente ignorados, mas com grande relevância ecológica e cultural (Figura 2). Esta abordagem contrasta com modelos educativos tradicionais, muitas vezes centrados em conteúdos teóricos e descontextualizados.
O artigo defende que é precisamente este contacto direto com os territórios, aliado ao envolvimento ativo e criativo, que potencia o desenvolvimento de uma verdadeira literacia da água e do oceano (Figura 3), capaz de gerar uma relação de pertença e responsabilidade ambiental.

2. Aprendizagem Experiencial e Saída da Sala de Aula
A aprendizagem experiencial foi a base do trabalho desenvolvido pelas turmas envolvidas. O território serviu como sala de aula viva, permitindo o contacto direto com a natureza e os processos culturais locais.
Os professores destacaram o impacto destas experiências. Uma das docentes afirmou: “A melhor escola é aquela que se vive, que se experiencia na prática, fora da sala de aula, num contexto real.”
Muitos alunos, especialmente os mais novos, revelaram inicialmente algum receio do espaço natural — como o desconforto em sentar-se na relva ou o medo de insetos —, mas rapidamente superaram essas barreiras. Essa transformação evidenciou a distância crescente entre os jovens e os ambientes naturais, mesmo em contextos rurais, e a importância de criar oportunidades para recuperar essa relação.
3. Co-Criação de Conhecimento e Património Intergeracional
O território foi também entendido como espaço de co-criação de conhecimento e de reconstrução simbólica do património. O foco no moinho do Minante, em ruínas, procurou reconectar gerações em torno de um lugar com forte valor identitário.
As metodologias artísticas, ao permitirem a expressão pessoal e a interpretação do lugar pelos alunos, facilitaram uma ligação emocional e cultural ao espaço. As intervenções artísticas desenvolvidas — desde sinalética até instalações visuais e estruturas funcionais — foram formas de agir sobre o território, refletir sobre ele e contribuir para a sua valorização.
Este envolvimento juvenil correspondeu a um desejo expresso pela população local mais envelhecida, que manifestava preocupação com a preservação das culturas ligadas à água. Assim, o projeto ajudou a construir pontes entre gerações, promovendo um território mais vivido e participado.
4. Desafios e Boas Práticas para o Futuro
Apesar do sucesso do projeto, foram identificados vários desafios associados à utilização do território como espaço educativo:
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Dificuldade em articular o tempo escolar com o tempo necessário para o desenvolvimento dos projetos
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Logística de transporte de alunos
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Recursos financeiros limitados
Em resposta a estas dificuldades, o Workshop Lab.CA Educação e Território, realizado após o projeto, promoveu uma reflexão coletiva que resultou na identificação de boas práticas que desenvolveremos no tópico seguinte.
Reflexão e continuidade: o workshop Lab.CA
Após a conclusão do projeto, foi promovido o workshop Lab.CA Educação e Território, com o objetivo de refletir sobre a participação das escolas e projetar futuras iniciativas. A sessão permitiu identificar boas práticas e recomendações fundamentais, tais como:
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Envolvimento precoce das escolas no planeamento
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Adaptação dos calendários escolares aos tempos da natureza
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Utilização de materiais sustentáveis e inspirados nos recursos locais
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Promoção da colaboração entre diferentes escolas, parceiros culturais, associações ambientais, autarquias e universidades
Os participantes destacaram ainda a importância de trabalhar temas como comunidade, água, oceano, continuidade e partilha de forma transversal e colaborativa, Figura 4.

Conclusão: educar para cuidar
O projeto Minante demonstrou que o contacto direto com a natureza e o património local, facilitado por práticas artísticas participativas, pode ser um catalisador importante para a literacia da água e do oceano. A ligação afetiva e sensorial ao território contribui para formar cidadãos mais conscientes, atentos e comprometidos com a sustentabilidade.
Mais do que um projeto artístico ou educativo, o Minante representa uma proposta para repensar o papel da escola, tornando-a um espaço mais aberto ao mundo, enraizado no contexto onde se insere e capaz de criar ligações significativas entre as pessoas e os lugares.
Esta é uma das muitas formas de cuidar da paisagem — através da arte, da participação e do envolvimento de quem mais pode fazer a diferença: as novas gerações.
Entre o Clima e a Paisagem é uma rubrica do Centro do Clima que traduz e partilha conhecimento científico aplicado aos territórios, promovendo práticas que aliem sustentabilidade, cultura e participação comunitária.

