Quando uma cidade decide transformar uma rua, criar um jardim, redesenhar uma praça ou planear novos espaços verdes, quem é chamado a participar?

Normalmente, ouvimos técnicos, decisores políticos, associações, moradores adultos, comerciantes ou proprietários. Mas e as crianças? E os jovens? Também eles vivem a cidade todos os dias. Caminham até à escola, brincam nos parques, atravessam ruas, esperam pelos transportes, sentem o calor nos recreios, evitam lugares que consideram inseguros e conhecem bem os espaços onde gostariam de estar mais tempo.
Este texto parte do artigo científico “Opening up spatial planning to the participation of children and youth: the Swedish experience”, de Romina Rodela e Emma Norss, publicado na revista European Planning Studies, em 2023. O artigo analisa a experiência da Suécia na integração de crianças e jovens nos processos de planeamento territorial, num contexto em que a Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança foi incorporada na legislação nacional sueca, reforçando a necessidade de os envolver em decisões que afetam os lugares onde vivem, aprendem e brincam.
A ideia pode parecer simples: se as crianças usam a cidade, devem poder dizer algo sobre ela. Mas o artigo mostra que este princípio levanta questões muito importantes. Não basta convidar crianças e jovens para uma atividade, pedir-lhes desenhos, recolher opiniões e depois continuar o processo como se nada tivesse acontecido. A participação só é realmente significativa quando aquilo que é dito tem possibilidade de influenciar decisões.
As crianças veem a cidade a partir de outra escala. Aquilo que para um adulto é apenas uma rua movimentada, para uma criança pode ser uma barreira difícil de atravessar. Um largo sem árvores pode parecer apenas um espaço livre num plano, mas para quem espera à saída da escola pode ser um lugar demasiado quente, desconfortável ou pouco acolhedor. Um jardim pode ser bonito no desenho, mas se estiver longe, se o percurso até lá não for seguro, ou se não tiver sombra suficiente, pode não responder às necessidades de quem o deveria usar.
Esta mudança de escala é particularmente importante quando falamos de alterações climáticas. As crianças estão entre os grupos mais vulneráveis ao calor extremo, à má qualidade do ar, à falta de sombra, à insegurança rodoviária e à ausência de espaços verdes próximos e acessíveis. Por isso, envolvê-las no planeamento das cidades não deve ser visto apenas como uma atividade educativa simpática. Pode ser uma forma de tomar melhores decisões públicas.

O artigo sobre a experiência sueca mostra precisamente esse desafio: abrir o planeamento do território à participação de crianças e jovens exige mais do que boas intenções. Exige métodos adequados, tempo, competências específicas por parte dos técnicos e, sobretudo, vontade de integrar os contributos recebidos nos instrumentos de planeamento e nos projetos concretos. As autoras sublinham que, apesar de existirem enquadramentos legais e ferramentas participativas, continua a ser difícil perceber até que ponto as opiniões das crianças e jovens influenciam realmente as decisões finais.
Há aqui uma questão de poder. Nos processos de planeamento, nem todas as vozes têm o mesmo peso. Algumas são ouvidas com mais facilidade: proprietários, investidores, especialistas, adultos organizados. Outras tendem a ficar à margem. As crianças e os jovens são muitas vezes vistos como utilizadores futuros da cidade, quando na verdade já são utilizadores presentes. Já habitam o território. Já têm experiências, rotinas, medos, preferências e ideias sobre os espaços onde vivem.
Perguntar às crianças o que pensam da cidade não significa entregar-lhes decisões técnicas complexas. Significa reconhecer que a sua experiência é uma forma legítima de conhecimento. Um percurso inseguro, um recreio sem sombra, uma praça onde não apetece ficar, um parque onde não se consegue brincar livremente, tudo isto são informações relevantes para quem planeia o território.
Numa cidade em aquecimento, esta escuta pode ajudar a identificar necessidades muito concretas: mais árvores junto às escolas, ruas mais seguras para andar a pé, espaços públicos com sombra e água, recreios mais verdes e permeáveis, percursos casa-escola mais confortáveis, parques de proximidade e lugares onde crianças e jovens possam simplesmente estar.
E há uma ideia ainda mais forte: uma cidade melhor para as crianças é, quase sempre, uma cidade melhor para todos. Mais sombra, mais segurança, menos trânsito, mais espaços verdes, melhor qualidade do ar e maior proximidade aos equipamentos beneficiam também idosos, famílias, pessoas com mobilidade reduzida e todos os que vivem o espaço público no dia a dia.
O planeamento urbano e territorial é muitas vezes apresentado como uma área técnica, feita de mapas, regulamentos, indicadores e plantas. E é. Mas é também uma forma de decidir como queremos viver em conjunto. Quem pode brincar na rua? Quem consegue caminhar com segurança? Quem tem acesso a sombra? Quem tem um jardim perto de casa? Quem é ouvido quando se desenha o futuro de uma cidade?
Se queremos cidades mais resilientes, justas e preparadas para o futuro, talvez devamos começar por ouvir melhor quem vai viver esse futuro, mas que já vive, hoje, nas nossas ruas, escolas, jardins e praças.
Porque planear com crianças e jovens não é apenas preparar a cidade de amanhã. É reconhecer que elas também fazem parte da cidade de hoje.


