Os recreios escolares são, frequentemente, espaços dominados pelo asfalto e por outros materiais impermeáveis. Esta configuração facilita alguns usos e simplifica a manutenção, mas oferece pouca sombra, retém calor e deixa pouco espaço para a presença da natureza.
Em várias cidades, esta realidade começa a mudar. Árvores, pequenos jardins, hortas, solos permeáveis e áreas destinadas a diferentes tipos de brincadeira estão a substituir parte das superfícies pavimentadas. Mais do que tornar as escolas visualmente mais verdes, estas intervenções procuram responder a desafios ambientais, educativos e sociais.
Um estudo publicado em 2025 na revista científica npj Urban Sustainability analisou a renaturalização dos recreios escolares em Paris, no âmbito do programa OASIS. Criado como resposta ao aumento das ondas de calor, o programa pretende transformar os recreios em espaços mais frescos, permeáveis e adaptados às alterações climáticas.

A investigação procurou perceber se estas intervenções também contribuem para a biodiversidade urbana e para reforçar a relação das crianças com a natureza. Para isso, os investigadores estudaram as comunidades de artrópodes (um grupo que inclui insetos, aranhas e outros pequenos invertebrados) presentes em recreios renaturalizados e compararam-nas com as de espaços verdes próximos. Foram ainda entrevistados 21 intervenientes, entre professores, responsáveis escolares, técnicos municipais e outras pessoas envolvidas na conceção e manutenção dos espaços.
No total, foram identificados 7.929 indivíduos, distribuídos por 442 tipos diferentes de artrópodes. Embora os espaços verdes urbanos apresentassem, em média, uma maior variedade, a abundância total encontrada nos recreios não foi significativamente diferente da registada nos espaços verdes analisados.
Os resultados mostram, assim, que mesmo espaços relativamente pequenos e sujeitos a uma utilização intensa podem acolher comunidades diversificadas. Revelam também que a biodiversidade aumenta com a dimensão da área com vegetação: quanto maior era a presença de vegetação dentro do recreio, maior tendia a ser o número de espécies observado.
Isto não significa que os recreios substituam parques, jardins ou outros espaços verdes. As comunidades de artrópodes encontradas nos dois tipos de espaço apresentavam diferenças consideráveis e o estudo não confirmou que os recreios funcionem como corredores ou pontos de ligação entre áreas verdes. Ainda assim, demonstrou que podem constituir habitats urbanos com valor próprio.
A renaturalização também alterou a forma como as crianças utilizavam os recreios. Segundo os professores e responsáveis escolares entrevistados, a criação de ambientes mais variados favoreceu a diversificação das brincadeiras e o contacto quotidiano com plantas e pequenos animais. Formigas, folhas, hortas e áreas de terra passaram a integrar atividades espontâneas de descoberta e exploração.
A existência de diferentes espaços contribuiu ainda para uma ocupação mais distribuída do recreio. Nos espaços tradicionais, uma grande área central tende a ser dominada por jogos com bola, enquanto outras crianças permanecem nas margens. A introdução de zonas com características e funções distintas criou mais possibilidades de utilização e, em algumas escolas, favoreceu formas de brincar mais cooperativas.
Mas transformar um recreio não consiste apenas em retirar o asfalto e plantar árvores. O estudo identificou dificuldades relacionadas com a manutenção da vegetação, a coordenação entre serviços municipais e escolares e a distribuição de responsabilidades. Em algumas escolas, a continuidade dos projetos dependia excessivamente da motivação individual de professores, funcionários ou familiares.
A escolha das plantas também é importante. Espaços excessivamente ornamentais, com pouca diversidade ou vegetação pouco adaptada às condições locais, podem ter um contributo ecológico limitado. Para que estes recreios cumpram diferentes funções, a biodiversidade deve ser considerada desde a fase de projeto, juntamente com a segurança, a acessibilidade, as necessidades educativas e os usos quotidianos.

O envolvimento das crianças é igualmente essencial. No programa OASIS, os alunos participaram no diagnóstico dos recreios e na elaboração de propostas através de observações, inquéritos e maquetas. Esta participação permite adequar os espaços às suas necessidades e transforma a própria intervenção numa oportunidade de aprendizagem sobre o clima, a água, as plantas e os restantes seres vivos.
Embora o estudo tenha sido realizado em Paris, as suas conclusões convidam-nos a olhar de outra forma para os espaços escolares Poveiros. Num contexto urbano, cada recreio pode representar uma oportunidade para aumentar a presença de vegetação, melhorar a permeabilidade do solo, criar sombra e aproximar as crianças da natureza.
Os recreios escolares não têm de ser apenas espaços funcionais entre as salas de aula. Podem integrar a infraestrutura verde da cidade, acolher biodiversidade e proporcionar experiências que dificilmente acontecem num espaço inteiramente pavimentado. Para isso, a transformação física precisa de ser acompanhada por planeamento, conhecimento ecológico, manutenção adequada e envolvimento continuado de toda a comunidade escolar.
Artigo de referência:
Blanc, N., Clauzel, C., About, C., Riché, A.-L., Gippet, M. et al. (2025). Schoolyards greening for connecting people and nature: an example of nature-based solutions? npj Urban Sustainability, 5, 64. Consultar o artigo.

