Restaurar a Paisagem Agrícola para Salvar a Biodiversidade — Lições de Brandemburgo
Imagine uma paisagem agrícola vista do ar: grandes campos geométricos, poucas árvores, longas linhas de monoculturas. Agora imagine outra: campos mais pequenos, sebes que desenham fronteiras naturais, pequenas manchas de bosque, linhas de água, charcos escondidos entre culturas. A segunda paisagem é, reconhecidamente, mais viva, e não apenas aos olhos humanos. É também mais rica em biodiversidade, mais resistente à erosão, mais preparada para enfrentar secas ou cheias.
É precisamente esta segunda paisagem que a União Europeia quer recuperar. Até 2030, a meta é clara: garantir que pelo menos 10% da área agrícola seja ocupada por elementos de elevada diversidade, como sebes, margens herbáceas, bosquetes, muros de pedra, linhas de árvores ou pequenos charcos. Mas como saber onde restaurar primeiro? E como transformar uma meta política num plano concreto no terreno?
Uma nova investigação conduzido em Brandemburgo, na Alemanha, oferece algumas respostas.

Porquê restaurar elementos da paisagem?
Segundo o artigo, estes pequenos fragmentos de vegetação natural — chamados landscape features — são muito mais do que adornos ecológicos. Funcionam como infraestruturas vivas:
- Dão abrigo a aves, insetos polinizadores e predadores naturais de pragas.
- Capturam carbono e ajudam a mitigar alterações climáticas.
- Retêm água e reduzem o risco de erosão dos solos.
- Criam mosaicos agrícolas mais resilientes e mais agradáveis para quem vive ou trabalha no campo.
O problema? Na maior parte da Europa, a intensificação agrícola apagou estes elementos estruturantes da paisagem, transformando vastas regiões em paisagens simplificadas.
O caso de Brandemburgo: muito longe dos 10%
Brandemburgo, uma região dominada por grandes explorações agrícolas e por solos arenosos vulneráveis à seca, serviu de laboratório para testar uma metodologia de planeamento espacial.
Os autores do estudo mapearam cuidadosamente quatro tipos de elementos da paisagem — lenhosos, herbáceos, húmidos e pedregosos — e compararam a sua presença em mais de duas mil paisagens agrícolas.
Os resultados são surpreendentes:
- A média de elementos da paisagem é de apenas 3,6%.
- 94,4% das paisagens não chegam aos 10% exigidos pela Estratégia de Biodiversidade.
- Quase 19% não atingem sequer 1%.
Ou seja, alcançar a meta dos 10% é, em muitas regiões, um enorme desafio.
No entanto, há um padrão importante: as poucas paisagens que já cumprem a meta têm um traço em comum — são mais diversas, mais fragmentadas, mais “naturais”. Têm florestas próximas, mosaicos agrícolas mais recortados e maior variedade de elementos ecológicos. A conclusão é clara: a biodiversidade floresce onde a paisagem é mais complexa.

Cinco tipos de paisagem — e onde devemos agir primeiro
Para perceber como orientar os esforços de restauro, o estudo agrupou as paisagens agrícolas em cinco tipos, desde as mais simples (domínio total de agricultura, grandes campos, pouca diversidade) até às mais complexas (mosaicos ricos em vegetação e estrutura ecológica).
A recomendação que sai desta investigação é pragmática: As paisagens mais simples devem ser prioridade absoluta. São as que mais perderam biodiversidade e onde cada nova sebe ou margem herbácea faz uma diferença maior.
No entanto, cada tipo de paisagem precisa de soluções diferentes: (1) Nas mais simples, o foco deve estar em aumentar a diversidade de elementos e quebrar a monotonia dos grandes campos com sebes e margens; (2) Nas paisagens simples mas ainda moderadamente ricas, deve-se apostar também em aumentar áreas semi-naturais, como bosquetes e pequenos núcleos florestais.

Restaurar com inteligência: começar onde a agricultura ganha menos
Um dos aspetos mais inovadores do estudo surge quando os autores tentam responder à pergunta que muitos agricultores colocam: Onde podemos restaurar sem comprometer demasiado a produção?
A estratégia proposta é simples, mas poderosa: escolher como zonas prioritárias as áreas com menor potencial produtivo e maior risco de erosão.
Nos dez casos analisados ao detalhe, estas zonas “difíceis” ocupavam, em média, 11,3% da área agrícola, o que mostra que, em muitos casos, é possível alcançar a meta dos 10% quase sem tocar nas zonas mais produtivas.
Sebes contra o vento, faixas herbáceas em zonas de escorrência ou charcos em depressões naturais podem, ao mesmo tempo, reduzir perdas agrícolas, melhorar os solos e criar habitat para espécies ameaçadas.
O futuro: ciência, agricultores e políticas precisam de falar a mesma língua
O estudo não ignora as dificuldades:
- Falta uma definição europeia clara do que são “elementos de elevada diversidade”.
- As bases de dados são incompletas e incompatíveis entre países.
- Muitos agricultores receiam custos, burocracia ou riscos associados a determinadas estruturas.
Mas os autores propõem um caminho possível:
- criar normas europeias para mapear e monitorizar estes elementos,
- usar incentivos financeiros direcionados,
- envolver agricultores na decisão, mostrando que restaurar também pode melhorar a produtividade a longo prazo.
Em síntese: restaurar a paisagem agrícola é restaurar o futuro
O que este estudo demonstra, com dados sólidos e mapas rigorosos, é que o restauro da paisagem agrícola não é uma utopia ambientalista, mas uma estratégia concreta para salvar biodiversidade, estabilizar solos, proteger culturas e aumentar resiliência climática.
É um investimento que transforma campos demasiado simplificados em mosaicos vivos, onde natureza e agricultura deixam de ser forças opostas e passam a ser parceiras.
E mostra ainda algo essencial: para salvar a biodiversidade europeia, não basta proteger áreas naturais — é na paisagem agrícola que o futuro realmente se decide.

E a relevância para a Póvoa de Varzim?
As conclusões deste estudo, embora baseadas em Brandemburgo, ecoam também na realidade poveira. A perda de muros tradicionais, de galerias ripícolas, de sebes e de bosques de espécies nativas reduziu a complexidade ecológica das paisagens agrícolas locais — e com ela a biodiversidade, a fertilidade do solo e a resiliência às alterações climáticas.
Restaurar estes elementos na agricultura poveira não é apenas uma questão ambiental: pode reduzir erosão, proteger campos vulneráveis, aumentar a presença de polinizadores e tornar os sistemas produtivos mais robustos. Tal como o estudo demonstra, reconstruir o mosaico agrícola é investir num futuro mais sustentável, tanto para quem cultiva a terra como para quem nela habita.

