Quando o restauro faz-se em rede: aprendizagens do projeto LIFE PRIMED

Como restaurar ecossistemas frágeis em risco de desaparecimento?
E de que forma ciência, gestão e comunidades locais podem unir forças para devolver vida a florestas e zonas húmidas mediterrânicas?

Na edição deste mês da rubrica Entre o Clima e a Paisagem, damos destaque ao Projeto LIFE PRIMED (LIFE19 NAT/IT/000262), uma iniciativa financiada pela União Europeia que, entre 2019 e 2025, trabalhou para restaurar e proteger florestas costeiras e zonas húmidas de água doce no Mediterrâneo. A ação centrou-se em dois locais da rede Natura 2000: o Bosco di Palo Laziale, perto de Roma (Itália), e o Delta do rio Nestos, no norte da Grécia. Ambos são ecossistemas únicos, gravemente ameaçados pela urbanização, pela agricultura intensiva e pelos efeitos cada vez mais severos das alterações climáticas .

 

Porque são estes ecossistemas tão importantes?

As zonas húmidas e as florestas costeiras mediterrânicas são ecossistemas de elevado valor ecológico, social e económico. Para além da sua beleza paisagística, desempenham funções fundamentais:

  • Serviços ecológicos essenciais: funcionam como esponjas naturais, filtrando poluentes, recarregando aquíferos e controlando cheias. São também reservatórios de carbono, fundamentais para mitigar os efeitos das alterações climáticas.

  • Biodiversidade única: estas áreas abrigam uma elevada diversidade de espécies, incluindo aves migratórias protegidas, tartarugas e plantas raras que dependem de habitats temporários como charcos e lagoas sazonais.

  • Conectividade ecológica: ligam ambientes terrestres e aquáticos, assegurando rotas de migração, alimentação e reprodução para diferentes organismos.

  • Património cultural: muitas comunidades locais mantêm relações seculares com estes territórios, usando recursos de forma sustentável e integrando-os nas suas práticas culturais.

Contudo, a sua importância não as protegeu da degradação. A construção desordenada, a expansão agrícola intensiva, a drenagem de zonas húmidas e o aumento da salinidade dos solos reduziram a sua extensão e qualidade. Com as alterações climáticas, fenómenos como secas prolongadas e tempestades extremas agravam ainda mais a fragilidade destes ecossistemas.

 

Dois locais emblemáticos, um desafio partilhado

O LIFE PRIMED focou-se em dois locais (Figura 1) representativos dos problemas e desafios que se vivem em muitas outras regiões mediterrânicas.

  • Bosco di Palo Laziale (Itália): localizado perto de Roma, este bosque é um dos últimos fragmentos de floresta de carvalhos que antigamente cobriam a costa do Lácio. Nas últimas décadas perdeu mais de 40% das suas árvores adultas devido à combinação de secas prolongadas, patógenos, aumento da salinidade dos solos e ausência de gestão adaptada. O resultado foi um ecossistema empobrecido, com menor cobertura arbórea, fragmentação de habitats e perda de espécies características.

  • Delta do rio Nestos (Grécia): uma das maiores e mais importantes zonas húmidas do país, composta por florestas ribeirinhas, lagunas, canais e habitats para mais de 300 espécies de aves. Contudo, as alterações provocadas pela construção de barragens, o corte excessivo de árvores e a pressão agrícola transformaram profundamente a paisagem, levando à perda de biodiversidade e à redução da qualidade da água.

Ambos os locais, embora diferentes na sua composição, partilham um problema central: a degradação avançada causada por múltiplas pressões humanas e ambientais.

Figura 1 – Localização das áreas de intervenção do projeto LIFE PRIMED: à esquerda, o Delta do rio Nestos (Grécia) e à direita o Bosco di Palo Laziale (Itália). Fonte: Cambria et al., 2025.

Soluções testadas no terreno

A originalidade do LIFE PRIMED esteve na forma integrada como juntou ciência, inovação tecnológica e práticas de gestão adaptadas ao contexto local.

  • Reflorestação com espécies nativas: criaram-se viveiros capazes de produzir milhares de mudas de carvalhos e outras espécies adaptadas ao clima mediterrânico. Estas plantas foram cultivadas em condições controladas para evitar a propagação de patógenos, garantindo maior sobrevivência quando transplantadas.

  • Controlo de espécies invasoras: uma das maiores ameaças nos dois locais era a expansão da Amorpha fruticosa, uma planta invasora que ocupa grandes áreas, suprimindo a vegetação nativa. Em vez de recorrer a herbicidas, a equipa testou técnicas inovadoras: cortes repetidos, colocação de telas para sombreamento e até pastoreio com cabras, que se mostraram eficazes no controlo da planta e no enriquecimento do solo.

  • Recuperação de charcos temporários: estes habitats, cruciais para anfíbios e insetos aquáticos, tinham desaparecido em muitas áreas. O projeto recriou vários charcos, restaurando dinâmicas naturais e aumentando a diversidade biológica.

  • Gestão da água com inovação tecnológica: instalaram-se tanques subterrâneos para recolha de água da chuva e bombas movidas a energia solar, garantindo irrigação de emergência em períodos críticos de seca. Esta medida provou que é possível integrar energias renováveis na conservação (Figura 2).

  • Conservação ex-situ: sementes de espécies-chave foram recolhidas e armazenadas em bancos de germoplasma, assegurando que a diversidade genética não se perde e pode ser usada em futuras ações de restauro.

Estas intervenções, adaptadas a cada contexto, mostram que a restauração ativa não é apenas desejável, mas possível — e que soluções sustentáveis podem substituir práticas químicas ou intensivas.

Figura 2- Projetos de sistemas hidráulicos nos locais Natura 2000: (A) Delta do Nestos, com destaque para o sistema de três poços de água; (B) Bosco di Palo Laziale, evidenciando o tanque de acumulação de água e sistemas associados. Fonte: Cambria et al., 2025

A importância da monitorização

Restauro sem acompanhamento é apenas um ato pontual. Por isso, o LIFE PRIMED apostou na criação de planos de gestão para os próximos 30 anos, baseados em dados científicos sólidos.

Monitorizou-se:

  • a taxa de sobrevivência das árvores plantadas;

  • a evolução da cobertura vegetal;

  • a presença de aves, anfíbios e répteis;

  • a qualidade da água em lagunas e cursos de água;

  • a eficácia das técnicas de controlo de invasoras.

Esta monitorização (Figura 3) contínua permite ajustar as práticas ao longo do tempo e criar modelos replicáveis para outras regiões mediterrânicas.

Figura 3– Grades utilizadas para monitorizar a vegetação dos charcos temporários mediterrânicos nos dois locais do projeto LIFE PRIMED. Fonte: Cambria et al., 2025.

 

Lições e aprendizagens

Do projeto emergem algumas lições valiosas (Figura 4) para o futuro do restauro ecológico:

  • O restauro é tanto social como ecológica. Sem o envolvimento de agricultores, associações locais, escolas e autarquias, as medidas dificilmente se mantêm no tempo.

  • Não há soluções universais. O que funciona numa floresta de carvalhos pode não resultar numa zona húmida ribeirinha. A adaptação local é essencial.

  • Tecnologia e natureza podem caminhar juntas. Desde bombas solares até métodos não químicos de controlo de invasoras, a inovação é uma aliada da conservação.

  • A visão tem de ser de longo prazo. Recuperar ecossistemas degradados exige décadas de acompanhamento e capacidade de adaptação a novos desafios.

  • Educação e sensibilização são determinantes. O envolvimento de escolas, visitas guiadas e workshops criaram consciência nas comunidades, preparando terreno para a continuidade.

Figura 4 – Esquema conceptual das interligações entre os diferentes pilares do restauro ecológico mediterrânico. O diagrama evidencia como a ciência (diagnóstico e inovação), a gestão (planos de intervenção e monitorização), as comunidades locais (saberes práticos, envolvimento e corresponsabilidade) e as políticas públicas (enquadramento legal e financiamento) se articulam para garantir o sucesso do projeto LIFE PRIMED. Fonte: elaboração própria.

Conclusão: restaurar para resistir

O LIFE PRIMED mostrou que o restauro ecológico é possível mesmo em ecossistemas altamente degradados. Mais do que plantar árvores ou criar charcos, trata-se de reconstituir equilíbrios ecológicos e sociais, fortalecendo a resiliência dos territórios frente às alterações climáticas.

Num Mediterrâneo onde os impactos ambientais se fazem sentir de forma intensa, este projeto deixa um legado inspirador: restaurar não é apenas reparar o passado, é preparar o futuro. Um futuro em que florestas, águas e comunidades caminham lado a lado, num equilíbrio renovado.

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