Quando o Mar se Pensa em Azul: Repensar a Economia Azul com as Ciências Sociais

Como tornar a Economia Azul verdadeiramente justa e sustentável?
E de que forma as ciências sociais podem ajudar-nos a repensar a forma como usamos e governamos os oceanos?

Na rubrica Entre o Clima e a Paisagem deste mês, damos destaque a um estudo publicado na npj Ocean Sustainability. Este trabalho internacional propõe um caminho claro: para que a Economia Azul cumpra a promessa de sustentabilidade, é essencial integrar de forma mais consistente o olhar das ciências sociais nas políticas do mar.

A promessa e a realidade

Quando surgiu em 2011, a Economia Azul trouxe consigo um sopro de esperança. A ideia era usar o oceano de forma inovadora e responsável, conciliando desenvolvimento económico, proteção ambiental e justiça social. O mar passava a ser visto não apenas como recurso económico, mas também  como espaço de vida, cultura e futuro para as comunidades costeiras e insulares.

No entanto, à medida que  foi sendo implementando, o conceito acabou muitas vezes por seguir uma lógica centrada no crescimento económico, afastando-se da sua visão original. O rápido avanço do turismo de cruzeiros e da energia offshore, por exemplo, trouxe impactos negativos para os ecossistemas, conflitos no uso do espaço marítimo e, muitas vezes, exclusão de comunidades locais. Em vez de criar oportunidades partilhadas, a Economia Azul tem frequentemente reforçado desigualdades, concentrando benefícios em grandes empresas e deixando para trás pescadores artesanais, povos indígenas e trabalhadores do mar.

 

O contributo das ciências sociais

As ciências sociais têm um papel decisivo para reavaliar a Economia Azul. Não chega contar toneladas de peixe, calcular megawatts de energia ou somar lucros de turismo. Precisamos de compreender como estas atividades afetam a vida das pessoas, alteram culturas locais e transformam os territórios costeiros. O mar é, ao mesmo tempo, um espaço económico, mas também social, cultural e político — e é essa dimensão que as ciências sociais trazem para o centro da discussão.

De acordo com o estudo, há três áreas fundamentais onde este contributo se revela:

  • Revelar injustiças e desigualdades
    As ciências sociais ajudam a perceber quem beneficia e quem é prejudicado pelas políticas do mar. Por exemplo, a expansão da energia eólica offshore pode afastar pescadores artesanais das suas áreas tradicionais de atividade, enquanto o turismo de cruzeiros, embora lucrativo, ignora comunidades locais que sofrem com poluição e pressões ambientais.
  • Imaginar futuros alternativos
    Mais do que criticar, estas disciplinas ajudam a pensar soluções diferentes. Ao incluir a experiência de comunidades locais, povos indígenas ou cooperativas de pescadores, é possível desenhar modelos mais inclusivos e legítimos. O Ordenamento do Espaço Marítimo, por exemplo, deixa de ser apenas técnico e torna-se participativo, articulando ciência, tradição e valores culturais.
  • Aproximar ciência e política
    Muitos estudos acabam por ficar confinados no meio académico, inacessíveis a decisores políticos. Aqui, as ciências sociais são essenciais: transformam conhecimento em mensagens claras, promovem fóruns de diálogo e ajudam a criar canais de comunicação entre investigadores, decisores e cidadãos.

No fundo, o contributo das ciências sociais não se resume à análise de problemas. Traduz-se em justiça social, inclusão de vozes esquecidas e fortalecimento da democracia. Sem este olhar, a Economia Azul corre o risco de ser apenas mais um modelo de exploração do oceano. Com ele, abre-se a possibilidade de construir um projeto coletivo de sustentabilidade, bem-estar e futuro partilhado.

 

Estratégias para mudar de rumo

Com base em projetos de investigação, como a Ação Cost RethinkBlue, os autores identificam cinco princípios que podem guiar uma nova Economia Azul. Em vez de se centrar exclusivamente em setores económicos isolados, a investigação deve ancorar-se em desafios humanos e sociais concretos — desde a segurança alimentar até à resposta às alterações climáticas. Deve ainda apostar na cocriação de conhecimento, envolvendo pescadores, autarquias e organizações locais na definição de soluções.

Outro ponto essencial é a interface ciência-política: estudos científicos devem ser ser traduzidos para uma linguagem clara e útil aos decisores políticos. Mas a mudança não depende só da forma como comunicamos; exige também uma integração mais ampla de saberes , que una diferentes disciplinas e valorize perspetivas menos ouvidas, como os jovens investigadores ou os profissionais não académicos.

Por fim, é fundamental que todo este processo seja guiado por uma cultura de responsabilidade e cuidado, onde a transparência, o respeito e a cooperação estejam no centro.

Fonte da imagem:  Flickr  Autor: Picasa 2.7. Link: https://www.flickr.com/photos/mcdemoura/1468561801

Mais do que economia: comunidades, cultura e futuro

Repensar a Economia Azul significa também dar destaque às comunidades costeiras, que são as verdadeiras guardiãs do mar. A pesca artesanal, muitas vezes marginalizada, fornece alimentos saudáveis, garante emprego e mantém tradições culturais vivas. Valorizar estas atividades é essencial para equilibrar a justiça social com a proteção ambiental.

Os conflitos pelo uso do espaço marítimo — entre pesca, aquacultura, turismo, transporte e energia — mostram que precisamos de processos de planeamento que permitam uma coexistência justa e equilibrada. A tecnologia pode ser uma aliada, com ferramentas digitais de monitorização e gestão, mas só terá impacto positivo se for acompanhada por processos participativos que incluam as comunidades que vive do mar e junto dele.

Há ainda uma dimensão de justiça intergeracional que não pode ser esquecida: as escolhas feitas hoje vão moldar a vida das próximas gerações. Sustentabilidade é também garantir que filhos e netos possam continuar a viver do mar de forma justa.

 

Desafios que não podemos ignorar

Apesar do potencial, existem obstáculos sérios à implementação de uma Economia Azul mais justa. Entre os principais estão:

  • Falta de confiança entre cidadãos, comunidades locais e instituições, muitas vezes reforçada por processos e mecanismos pouco transparentes.
  • Barreiras legais complexas, que dificultam o desenvolvimento de modelos alternativos de governança e ordenamento do mar.
  • Concentração de poder em poucos atores económicos, excluindo os mais pequenos e vulneráveis.
  • Resistência à mudança, que pode atrasar a transição para soluções inovadoras e inclusivas.

 

 

Caminhos de esperança

Apesar das dificuldades, há sinais encorajadores em várias partes do mundo. Iniciativas de cocriação entre pescadores, escolas e autarquias têm mostrado que é possível construir soluções locais inovadoras, como a introdução de peixe fresco e local em cantinas escolares. Experiências de ordenamento do espaço marítimo participativo revelam que, quando todos os atores participam desde o início, as políticas ganham mais legitimidade e aceitação.

Estes exemplos demonstram que a mudança é possível quando se aposta em:

  • Transparência e diálogo aberto com as comunidades.
  • Modelos de negócio orientados para o impacto social e ambiental, e não unicamente para o lucro.
  • Participação ao longo de todo o processo, e não apenas na fase final de implementação.

 

Conclusão: mares de futuro

Repensar a Economia Azul não significa abandonar o conceito, mas sim resgatá-lo da deriva excessivamente  económica que tem seguido. Os oceanos não são apenas reservas de recursos, mas também territórios de vida, cultura e memória. Ao integrar melhor as ciências sociais, podemos alcançar decisões mais justas, participativas e sustentáveis.

O futuro dos mares depende da nossa capacidade de unir saberes, respeitar comunidades e imaginar soluções partilhadas. Só assim poderemos construir uma Economia Azul que seja realmente sustentável e justa para todos.

 

Entre o Clima e a Paisagem é uma rubrica do Centro do Clima que partilha exemplos inspiradores e conhecimento científico aplicado aos territórios, promovendo práticas onde sustentabilidade, cultura e participação comunitária andam de mãos dadas.

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