O governo britânico publicou recentemente algo invulgar: uma avaliação de segurança nacional que coloca a perda de biodiversidade ao mesmo nível de ameaças como o terrorismo ou os conflitos armados. Não se trata de retórica ambientalista – é uma análise fria e rigorosa que conclui: o colapso de ecossistemas críticos ameaça diretamente a segurança alimentar, a estabilidade económica e a paz global.

O que está a acontecer aos ecossistemas globais?
Os números do relatório britânico são categóricos: as populações de espécies vertebradas diminuíram 68% desde 1970. Nos ecossistemas de água doce, a queda foi ainda mais dramática: 84%. A taxa de extinção é agora dezenas a centenas de vezes superior à média dos últimos 10 milhões de anos.
Mas o verdadeiro alarme não está apenas na perda de espécies. Está no conceito de colapso de ecossistemas – um ponto de rutura a partir do qual um ecossistema deixa de conseguir manter as suas funções essenciais e transita irreversivelmente para um novo estado. Imagine a Amazónia a transformar-se em savana. Não é ficção científica – é uma possibilidade realista se a desflorestação atingir os 20-25% (está atualmente nos 17%).
Seis ecossistemas críticos em risco
O relatório identifica seis regiões ecossistémicas críticas para a segurança global, cuja degradação ou colapso teria impactos catastróficos:
- Floresta Amazónica – Regula padrões climáticos e ciclos de água muito para além das suas fronteiras
- Floresta do Congo – Segunda maior floresta tropical do mundo, crucial para o clima global
- Florestas Boreais – Armazenam enormes quantidades de carbono que, se libertadas, acelerariam as alterações climáticas
- Himalaias – Fonte de água para milhares de milhões de pessoas na Ásia
- Recifes de Coral do Sudeste Asiático – Base da segurança alimentar de centenas de milhões
- Mangais do Sudeste Asiático – Proteção costeira e berçários marinhos essenciais
A conclusão mais perturbante: todos estes ecossistemas estão numa trajetória de colapso. E há uma possibilidade realista de alguns começarem a colapsar já a partir de 2030 – daqui a apenas cinco anos.

O colapso de ecossistemas críticos é um multiplicador de riscos que pode desencadear insegurança alimentar, instabilidade económica, migração forçada e conflitos.
Riscos em cascata: como é que o colapso de um ecossistema desencadeia múltiplas crises ?
O documento britânico introduz o conceito de “riscos em cascata” – quando o impacto da perda de biodiversidade escala através de um sistema de conexões. Um exemplo concreto do relatório ilustra este efeito dominó: entre 2012-14, uma doença atacou as plantações de café na América Central, levando muitos agricultores a terem produção zero. A insegurança económica resultante deslocou 373.000 pessoas. Em 2018, padrões climáticos erráticos causaram a perda de 60% da colheita de café centro-americana. Comunidades inteiras viram-se forçadas a migrar, muitas em direção aos Estados Unidos.
Este é apenas um exemplo. O relatório projeta que o colapso de ecossistemas pode desencadear:
- Insegurança alimentar e hídrica em escala global;
- Instabilidade geopolítica e competição por recursos escassos;
- Migrações em massa de populações deslocadas;
- Conflitos armados por terra arável e água;
- Colapso económico (os serviços dos ecossistemas representam cerca de 3% do PIB britânico);
- Aumento do risco de pandemias com a degradação dos habitats naturais.
O espelho Português: estamos preparados?
Se estes riscos já são considerados ameaças à segurança nacional de uma potência como o Reino Unido, a pergunta impõe-se: o que significam para Portugal?
Portugal partilha com o Reino Unido uma vulnerabilidade estrutural relevante: a dependência de cadeias alimentares globais. Tal como outros países europeus fortemente integrados nos mercados internacionais, Portugal não é autossuficiente em alimentos com base nos padrões de consumo actuais, dependendo significativamente de importações para garantir o abastecimento interno.
Essa dependência é particularmente evidente em áreas-chave como:
-
cereais, onde o grau de autoaprovisionamento nacional é historicamente baixo;
-
matérias-primas para a alimentação animal, como a soja importada da América do Sul;
-
fertilizantes minerais, essenciais para a produtividade agrícola e largamente provenientes do exterior;
-
determinados óleos vegetais e produtos alimentares transformados, integrados em cadeias globais longas e vulneráveis a choques externos.
O relatório britânico é claro ao sublinhar que nenhum país altamente dependente do comércio internacional é hoje plenamente autossuficiente em alimentos sem alterações profundas nas dietas, nos sistemas de produção e no investimento agrícola. No caso do Reino Unido, alcançar maior autossuficiência exigiria mudanças estruturais significativas. Portugal enfrenta desafios semelhantes, num contexto económico e ambiental igualmente exigente.
A estes factores soma-se a perda de biodiversidade em território nacional. A simplificação das paisagens agrícolas, o declínio de polinizadores, a degradação dos solos e a pressão sobre os ecossistemas aquáticos reduzem a resiliência dos sistemas produtivos portugueses. Tal como o relatório britânico sublinha, a erosão do capital natural não é um problema ambiental isolado, mas um multiplicador de riscos económicos e de segurança, uma realidade que, em Portugal, já se faz sentir no terreno.
Para além disso, há, ainda, uma camada adicional de risco para os países mediterrânicos. A agricultura nacional está já na linha da frente das alterações climáticas: secas mais frequentes e intensas, degradação dos solos, escassez de água e perda de polinizadores. Os mesmos factores que o relatório identifica como ameaças futuras à produção alimentar britânica são, em Portugal, realidades presentes, com impactos directos na produtividade, na estabilidade dos rendimentos agrícolas e na segurança alimentar a médio prazo. Mas estarão as políticas públicas a responderem a estes cenários?
Três limiares planetários e a urgência de agir
O documento refere que seis dos nove “limites planetários” (os limites seguros para a pressão humana sobre processos críticos do sistema terrestre) já foram ultrapassados:
- Integridade da biosfera (incluindo perda de biodiversidade) ✗
- Alterações climáticas ✗
- Mudança no uso do solo ✗
- Alteração de água doce ✗
- Fluxos de nutrientes (azoto e fósforo) ✗
- Novas entidades (poluição química e plásticos) ✗
Três permanecem dentro de limites seguros:
- Depleção do ozono estratosférico ✓
- Carga de aerossóis atmosféricos ✓
- Acidificação dos oceanos ✓
Ultrapassar estes limites aumenta exponencialmente o risco de mudanças abruptas e irreversíveis nos sistemas que sustentam a vida na Terra.

Existe solução? Proteção e restauro ecológico como resposta
Apesar do tom sombrio, o relatório não é derrotista. Aponta claramente que proteger e restaurar ecossistemas é mais fácil, económico e fiável do que confiar em soluções tecnológicas futuras.
Em 2022, 196 países (incluindo Portugal) assinaram o Acordo de Kunming-Montreal, comprometendo-se a:
- Proteger 30% da terra e oceanos até 2030
- Colocar 30% da natureza global sob restauro até 2030
- Mobilizar 700 mil milhões de dólares para fechar a lacuna de financiamento
- Reduzir riscos de pesticidas em 50% até 2050
- Eliminar ou reformar subsídios prejudiciais no valor de 500 mil milhões de dólares/ano
Um caso de sucesso citado no relatório vem do Maláui: mais de 20 milhões de árvores plantadas, 42.000 hectares de terra degradada recuperada. Resultado? Mais de 500.000 residentes com melhor acesso a água, produção alimentar diversificada e fontes de rendimento. A dependência de ajuda humanitária caiu 60%.
O que é que isto significa para a ação local
Para organizações como o Centro do Clima, este relatório valida o que a prática já demonstra: a acção local em restauro de ecossistemas é uma questão de resiliência e segurança nacional.
Quando plantamos florestas nativas, quando criamos sistemas agroflorestais, quando regeneramos linhas de água, não estamos apenas a “fazer bem ao ambiente”. Estamos a:
- Aumentar a nossa capacidade de produzir alimentos localmente
- Melhorar a retenção de água em tempos de seca crescente
- Criar sistemas mais resilientes a choques climáticos
- Reduzir a dependência de cadeias de abastecimento globais vulneráveis
- Construir literalmente a nossa segurança alimentar futura
O relatório britânico conclui que os países melhor posicionados para se adaptarem são “aqueles que investem na protecção e restauro de ecossistemas e em sistemas alimentares resilientes e eficientes”. Esta não é uma escolha entre ambiente e economia. É reconhecer que a economia depende totalmente de ecossistemas funcionais.
Conclusão: do alerta à ação
A avaliação britânica traz algo inédito: traduz a crise da biodiversidade para a linguagem da segurança nacional, dos riscos económicos concretos, das ameaças à estabilidade social. Não porque a natureza só tenha valor instrumental, mas porque decisores políticos e económicos precisam entender que não há economia, não há segurança, não há sociedade estável num planeta com ecossistemas colapsados.
Para Portugal, as questões são urgentes:
- Como reduzir a dependência de importações alimentares num mundo de recursos cada vez mais escassos?
- Como tornar a nossa agricultura mais resiliente quando os próprios ecossistemas que a suportam estão sob stress?
- Como proteger e restaurar os nossos próprios ecossistemas – florestas, rios, zonas húmidas, solos, dunas – que são a nossa primeira linha de defesa?
O tempo para agir não é amanhã. Segundo o relatório, alguns ecossistemas críticos podem começar a colapsar já em 2030. Mas cada hectare restaurado, cada sistema agroflorestal regenerativamente criado ou transformado, cada rio recuperado, é um investimento directo na nossa resiliência colectiva.
Este relatório deixa claro que a segurança alimentar e económica começa no território. Investir na proteção e no restauro dos ecossistemas não é activismo ambiental; é planeamento estratégico.
A questão agora é quem está disposto a agir antes que o risco se torne crise. Na Póvoa de Varzim já demos o primeiro passo.

